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Resenha: O Amante | Marguerite Duras | Planeta de Livros

 

O Amante, de Marguerite Duras é um bom exemplo do quanto alguns livro exigem, pelo menos certa maturidade do leitor. Foi isso que senti com este relançamento da Planeta de Livros

A minha primeira leitura deste clássico foi em 1984, logo que foi lançado. Neste mesmo ano, o livro recebeu o Prêmio Goncourt, maior premiação da literatura francesa. Me lembro do frisson que este lançamento causou por aqui. Um livro polêmico, sensual e com ar de proibido.

Eu, no auge dos meus 15 anos, me sentia muito adulta e madura e assim iniciei aquela leitura. Para minha surpresa, não só não gostei, como não entendi o livro, conclusão, o defini como muito chato.

Por isso quando soube deste relançamento da Planeta, quis ler esta nova edição, que acabou de ser lançada. Um detalhe, eu detesto reler livros, normalmente não faço releituras, mas senti que esta seria muito interessante.

Hoje, trinta e cinco anos depois, percebo que li um "outro" livro, ou melhor, sou uma Claudia muito mais madura e vivida e assim consegui entender o livro e claro, não achei a leitura nada chata, muito pelo contrário.

Eu amo livros baseados em histórias reais, ainda mais quando se tem a impressão que tudo não passa de ficção.

O que foi real? O que foi romanceado na vida de Marguerite Duras? Na essência, só ela mesma poderia dizer. É exatamente isso que instiga o leitor nesta leitura.

O Amante é seu livro de memórias. A autora afirmou que este é o mais autobiográfico dos seus livros, mas exatamente o que aconteceu, não sabemos.

Foi muito interessante mergulhar nesta leitura e foi exatamente o que senti, um mergulho rápido. Sabe quando você pula numa piscina gelada e após o primeiro choque, os seus sentidos ficam à flor da pele? Foi esta sensação, tão diferente das que habitualmente acompanham minhas leituras, que senti neste livro.

Um romance que provoca, assim é O Amante. Marguerite narra seu envolvimento com um chinês 12 anos mais velho que ela, quando ela tinha quinze anos e meio. Foi amante dele por um bom tempo. Naquele tempo era inconcebível que eles pudessem assumir este relacionamento e ambos sabiam disso.

Caçula de três irmãos, sua família era completamente desestruturada. A mãe ficou viúva quando a autora tinha 4 anos e apresentava sinais de doença mental, com episódios intensos de depressão. Teve dois irmãos mais velhos, o primogênito era violento, pelo relato da autora era o preferido da mãe, a quem explorava, fazia uso de drogas e era temido por todos. O irmão do meio faleceu ainda moço. Apesar de ter um contato melhor e lembrar dele com carinho, passaram mais de dez anos sem nenhuma notícia um do outro. Vínculos familiares difíceis permearam estes relacionamentos.

A trama traz a tona questões sobre preconceito, diferenças de classe social, a tentativa de luta pela autonomia feminina, além de tratar da sensualidade, do domínio pelo desejo, pelo proibido, pelo inalcançável. Tudo é sugerido, nada é conversado, nem colocado às claras.

As cenas são retratadas com beleza, às vezes com suavidade, outras com aspereza, mas sempre com os sentidos aguçados e assim manter o leitor, atento, em suspenso, durante a leitura.

Um livro forte, bem escrito, mas muito diferente. Um fato que ajudou muito foi contar com o posfácio escrito por Leyla Perrone-Moisés. Leyla é Doutora em Língua e Literatura Francesa e livre-docente pela Universidade de São Paulo (USP). Suas explicações e contextualizações sobre o texto trouxeram clareza e maior compreensão a esta leitura. Sem este posfácio, com certeza minha impressão do livro seria outra, menos profunda.

A capa é muito interessante e segue o padrão das capas da Tusquets em tom preto. A edição da Planeta é muito caprichada. A narração da autora é bem peculiar, a diagramação também. Capítulos pequenos, com grandes espaçamentos entre os parágrafos.

Um livro curto, mas intenso. Senti como se observasse uma coleção de fotos durante a leitura, como foi citado no posfácio e esta sensação me chamou a atenção.  Há uma polêmica sobre o filme inspirado neste livro. Embora tenha recebido muitas críticas positivas, tal admiração não foi compartilhada por Marguerite, que segundo afirmou em vários oportunidades, o filme não corresponde ao que escreveu, sua história não foi nada cor de rosa.

História impactante e pincelada de lembranças e sensações. Triste e melancólico, por isso também, belo. Uma escrita diferente. Me agradou muito.


O Amante
Autor: Marguerite Duras
Tradutor: Denise Bottmann
Ano: 2020
Páginas: 128
Editora: Tusquets | Planeta
Livro cedido pela editora
Minha avaliação: 4/5 estrelas
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