Resenha: Herdeiras do Mar | Mary Lynn Bracht | Editora Paralela

 

Olá!
Alguns livros são extremamente tristes, pesado e muito necessários. Apesar de lidarem com o sofrimento e crueldade humana, trazem luz a um determinado tema e muitas vezes impedem que este tipo de comportamento deixe de acontecer, ou pelo menos, que seja lembrado.

Assim foi com Herdeiras do mar, de Mary Lynn Bracht, da Editora Paralela. A primeira edição brasileira deste livro foi lançada pela TAG Literária Inéditos, em março deste ano e agora o livro está disponível também para quem não é assinante deste clube l
iterário de assinatura.

O livro retrata as histórias de duas irmãs 
sul coreanas, Hana e Emiko, separadas pela guerra que assolou o país, sob domínio do Japão. 

A trama apresenta dois universos, as prisioneiras de guerra e as Haenyeos. Fiquei fascinada pelas haenyeos - mulheres mergulhadoras. Estas mulheres corajosas, independentes e emponderadas, sustentavam suas famílias com o resultado dos seus mergulhos. Viviam no mar, colhendo mariscos, cuidando umas das outras durante os mergulhos. Uma comunidade forte e unida. Eu fiquei encantada com as cenas descritas pela autora, sobre estas mulheres, sobre o universo aquático que viviam, a maioria mergulhava e trabalhava até ter uma idade bem avançada. Destaquei o trecho abaixo de uma conversa de Emi com sua filha, quando esta diz não quer seguir os passos das mulheres da sua família, que quer ser professora.

"Todas as mulheres da nossa família se tornam haenyeo. Somos mulheres do mar. Esta no nosso sangue. Não nos tornamos professoras. Esse é o nosso dom e o nosso destino."

Estas cenas no mar, foram as cenas mais lindas e poéticas do livro. Um contraponto de leveza e beleza para a tristeza da perda do direito de crescer livre, de sonhar e ter sua vida., de ser prisioneira de guerra.

E são estas cenas e suas lembranças que impedem Hana de enlouquecer durante sua escravidão. A cada violação, Hana imagina que mergulha no mar, se refugia no oceano, onde nada pode atingir sua essência. Achei estas cenas simbólicas e emocionantes. 

Uma guerra que destruiu uma família inteira, aliás milhares de famílias coreanas. Sofri com Hana, a irmã mais velha, que aos 16 anos foi levada pelo exército japonês e mantida como escrava sexual. Isto acontece bem no começo do livro e não é um spoiler, é necessário para entender a trama. Mandada para a distante Manchúria, ela descobre um universo de sofrimento, dor e solidão. Torna-se uma mulher de consolo. 

Eu gosto muito de ler livros sobre guerras e confesso que ainda não tinha lido nada sobre este tema. As "mulheres de consolo" foram uma enorme atrocidade da guerra. Separadas das suas famílias, ainda muito jovens, eram enviadas para bordéis japoneses e ficavam à disposição da tropa japonesa, todos os dias da semana, durante todo o dia, recebendo um soldado após o outro, funcionando como uma "válvula de escape" para esta tropa.

A partir do seu desaparecimento, esta jovem "morria" literalmente para a família e para sua sociedade. Se por acaso tivesse a remotíssima "sorte" de fugir, escapar de alguma forma, ela já estava marcada pelo preconceito e seria considerada "perdida" para todos. Alguns historiadores, segunda autora, calculam que entre 50 e 200 mil mulheres coreanas foram sequestradas, enganadas ou vendidas como escravas sexuais para o uso de militares japoneses durante a colonização da Coreia pelo Japão.Desta apenas 44 estavam vivas no momento da escrita deste livro. Muitas que sobreviveram não tiveram a liberdade de contar sua história aos familiares e à sociedade, por conta do preconceito da sociedade patriarcal.

Os pais de Hana sabem que ela não voltará, mas sua irmãzinha Emi não aceita e passa a vida toda procurando por ela. Uma procura solitária, lenta e dolorosa. Ela também enfrenta seus fantasmas e provações. Será que ela vai encontrá-la? Te convido para ler este livro e descobrir.

Os capítulos são alternados entre as duas irmãs e se passam na Ilha de Jeju, onde as meninas nasceram e onde sempre viveu Emi e na Manchúria. São ambientados em 1943, época que Hana foi sequestrada e 2011, dias atuais retratados na trama.

Emi também enfrentou muitas dores junto com os pais, no seu próprio casamento e com seus filhos. Para poupar o seu casal de filhos, esconde a existência desta irmã há tanto perdida, mas que nunca perdeu a esperança de reencontrar. Um segredo que carregou por 60 anos. Uma história que a cada ano ela enfrenta sozinha, ao encontrar os sobreviventes desta guerra e exigir uma retratação do governo japonês.

A trama mescla ternura, amor, violência, medos, coragem e muitas tristezas. Me trouxe reflexões intensas e poderosas.

Compartilhei esta leitura única com duas amigas queridas, Karla do Pacote Literário e Claudia Vasconcelos, discutimos este livro e foram momentos especiais também.

Uma porrada de livro. Recomendo esta leitura única, mas você precisa estar bem para ler pois é muito, muito forte e intensa.

Herdeiras do Mar
Autor: Mary Lynn Bracht
Tradutor: Julia de Souza
Ano: 2020
Editora: Paralela
Páginas:304
Classificação: 5/5 estrelas

E-book cedido pela editora
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Sinopse

Participam também do BEDA: Lunna Obdulio | Chris | Drica | Neto | Darlene Carol | Ale


Comentários

  1. Nossa! Parece um livro e tanto! Li um livro chinês recentemente, maravilhoso, valeu cada página! Chama-se "A Montanha e o Rio" do autor Da Chen. Foi minha primeira experiência de leitura de um autor oriental e me agradou muito. Deixou como dica para você!

    Abraços!

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  2. Ai, Clau!
    Esses livros são lindos mesmo porque mostram a bravura das mulheres diante dos desafios que a vida as obriga a vencer. Eu tenho lido muita coisa e estou lendo um livro em que a autora fala sobre a "baboseira" de aplaudir a doação da mulher na maternidade como se fosse uma honra. Eu acho que essa criatura não entendeu nada sobre honra. Numa guerra, os homens que vão à batalha recebem medalhas por honra exatamente pela bravura de doarem sua vida por uma causa muito dolorida, mas de enfrentamento a alguma coisa maior e é isso que a maternidade pede da mulher, mesmo porque é uma condição inata do universo feminina, poder gerar uma vida e por ela doar-se. A doação de si mesmo é uma coisa muito dolorosa, em todas as dimensões, é isso que torna bonito o "ser mãe", nisso eu discordo da autora do livro que mencionei estar lendo, talvez eu não tenha entendido o sentido que ela quis comunicar, mas já tentei ver de todos os ângulos, continua soando como um discurso vazio e pra ressaltar alguma agenda ideológica feminista. Que fique claro que eu não sou contra as mulheres bem sucedidas, nem contra o progresso do bem-estar das mulheres, eu sou uma delas e beneficio-me de todos os bons avanços, desde que não seja o avanço do egoísmo e da competição, isso tira toda a glória da história.
    Amei sua postagem!
    Beijão, querida!
    Drica.

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