Resenha: Sonhos Interrompidos | Gisela Bacelar e Bruna Ceotto | Pela Janela de Casa | Planeta de Livros


Que tal um conto nacional?

Termino a leitura deste conto bem reflexiva. E compartilho com você a leitura de Sonhos Interrompidos, escrito por Gisela Bacelar e Bruna Ceott, para o  Projeto Pela janela de casa , da Planeta de LivrosTodos os contos deste projeto tem o mesmo tema, o enfrentamento do período de isolamento social, por conta da pandemia. 

Este é meu primeiro contato com a escrita das autoras e elas me surpreenderam bastante. 

Este foi, senão me engano, o maior conto, com 116 páginas, cheias de emoção, de intensidade. Me chamou a atenção e trouxe questionamentos importantes. Alissa  e Miguel são dois jovens vivendo em mundos opostos e contraditórios, que têm suas vidas cruzadas num momento de grande insegurança, bem no meio da pandemia.

O isolamento está presente na trama e as garras do vírus vão se mostrar, de forma cruel, assim como a violência presente numa grande cidade. O conto mostra que não é só o vírus que pode ser letal. O tráfico, a dependência química, a violência geram tragédias todos os dias.

Em capítulos intercalados entre eles, somos apresentados à dupla de protagonistas deste conto. Cada um traz seus medos, fantasmas, inseguranças, solidão, interesses e dinâmica vivencial. 

Enquanto Alissa, nome artístico de Larissa, uma youtube famosa e linda, tem uma vida de princesa, com luxo e ostentação, Miguel, é um ator iniciante em busca de uma chance de sucesso, mas que até o momento só conseguiu ser dispensado de um teste, sem mostrar seu talento.

Gostei muito da forma como as autoras trabalharam os contrastes dos dois. Alissa, apesar de rica e bem sucedida, no fundo é uma menina carente, órfã e que se sente muito sozinha. Tem um namorado e acaba de descobrir que foi traída por ele e uma agente que é uma mãe pra ela, que a mantem na linha. Mede seu valor pelos likes dos seus números fãs.

Miguel, mora na comunidade da Brasilândia, após a morte do seu pai, quando ainda era bem pequeno, sua mãe se casa novamente com um homem violento. Trabalha como garçom e sonha ir embora para os EUA. É um cara muito bacana, carismático e lutador.

Gostei muito também dos personagens secundários, que tem força e enriquecem os protagonistas com cenas ótimas. Maura, a agente de Alissa, determinada, focada e prestativa, mantem a jovem na linha. Miguel tem dois amigos de infância, os inseparáveis Lana e Tuco. Júlio é seu patrão e dono do restaurante que trabalha. Todos eles são afetivos, protetores e preocupados com Alissa e Miguel 

O que começa com uma pequena ameaça, ganha força e traz dor e desespero a estes jovens, mas ao mesmo tempo mostra que há saídas, que é importante lutar e resgatar sua essência, dar o melhor de si.

"Se enxergarmos aquelas estradas como a linha de nossas vidas, vemos que só há duas maneiras de se seguir: pisar o pé no acelerador, desviando de qualquer coisa a nossa frente, ultrapassando outros carros sem dar vez, com o único objetivo de chegar logo ao destino final. Ou podemos abaixar as janelas, respirar o ar puro, pisar no freio quando sentirmos necessidade de um pouco mais de tempo, olhar para além da estrada e apreciar a paisagem, sentir o vento contra nossos rostos, a luz do sol aquecer nossas almas ou, até mesmo nos dias mais chuvosos, deixar o barulho da chuva falar com o nosso coração. Há muito a se ouvir sem que nenhuma palavra seja dita, só precisamos não ter pressa."

Bonito, forte e triste, mas sem ser piegas. Aborda temas pesados e essenciais de serem discutidos como preconceito racial, violência doméstica, luto, a ilusão e o poder das redes sociais. Um conto muito bem escrito. Gostei muito. Recomendo.

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