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Eu Li: A Noite dos Olhos

Olá queridos leitores!
A resenha de hoje é do livro A Noite dos Olhos, escrito por Heloisa Seixas, lançamento da Companhia das Letras.


Sinopse
Nesta reunião de contos inéditos, Heloisa Seixas demonstra pleno domínio do gênero ao explorar diferentes narradores, estilos e cenários, criando histórias e desfechos que surpreendem o leitor a cada página. Ao longo de sua carreira, Heloisa Seixas transitou com habilidade pelos mais diversos gêneros literários. Após publicar dois romances em sequência ― O oitavo selo e Agora e na hora ―, a escritora carioca volta às formas breves, que marcaram sua estreia na literatura, com este volume de contos inéditos. Em A noite dos olhos, Heloisa explora diferentes narradores, estilos e cenários para retratar situações ora cotidianas, ora inesperadas. Embora independentes, essas histórias têm em comum uma prosa apurada, e se aproximam por fios invisíveis. Entremeadas aos dezesseis textos mais longos, o livro inclui duas seções de microcontos que transmitem toda a potência do gênero em sua forma mínima. Fruto de pleno domínio dos artifícios da ficção, esta é uma coleção de narrativas inquietantes, capaz de capturar o leitor do início ao fim.
Eu adoro a escrita da Heloisa Seixas e já li vários livros seus. Por isso fiquei muito feliz quando minha indicação para incluir este seu lançamento, A Noite dos olhos, ganhou a votação e será o livro de janeiro, do nosso amado Clube da Leitura, Companhia das Letras.

Este livro é bem diferente dos outros que li dela. Comecei a ler o livro hoje cedo e simplesmente não consegui largá-lo até chegar ao seu final. Que livro! Forte, denso, incômodo, vigoroso, muito bem escrito. Um livro que mexe com os sentidos dos leitores, todos...audição, olfato, tato, paladar, visão. Um livro cheio de sensualidade, de personagens fortes, intensos, dramáticos. Fiquei atordoada com esta leitura e precisei de algumas horas para digeri-lá.

Que autora talentosa é Heloisa Seixas! Que capacidade de síntese. Fico de queijo caído quando a autora consegue num microconto, não só dar conta de passar seu recado, a mensagem do texto, mas principalmente me fazer refletir e me perguntar, como ela consegue?! Que danada, esta Heloisa, gente!

Toda vez que leio um livro para o Clube da Leitura, é automático já ir pensando nas reações dos leitores, imagino quem gostará da trama e quem não curtirá muito (já estou neste nível de conhecimento do gosto de cada leitor, depois deste tempo todo de clube). Por tudo isso tenho certeza que um clube será pouco, para discutirmos este livro tão potente, rico e denso.

Os contos falam sobre relacionamentos, sobre vida e morte, expectativas e dilemas. Separei alguns, que mais me chamaram a atenção e também algumas frases para vocês. Não dá para contar de cada um deles, porque a resenha ficaria gigante.  

Alguns contos são mais tristes, noutros as relações familiares estão mais presentes. Perdas, decepções, entremeiam as histórias, criando uma teia de afeto, expectativa, dor e superação. Escritos numa linguagem muito bonita, fluida e potente.
O primeiro conto reflete até que ponto é interessante saber a verdade, se vale a pena abrir mão do que sempre acreditou e vivenciou em nome da "verdade".

O segundo conto me fez lembrar de uma história narrada num dos livros do Oliver Sacks , sobre uma mulher que só enxergava em tons de cinza e que também era um distúrbio neurológico. Que angústia!

Banhos árabes é o conto mais intenso, mais sensual. Todo o livro é extremamente sensorial e desperta sensações intensas e diferentes. Neste conto banhos árabes, acompanhamos a sensualidade latente e crescente, num encontro entre uma mulher e um homem mais novo. O desejo flui de forma livre, os personagens não tem nome são ele e ela isso cria um distanciamento interessante.

Em Mão soberanas uma mulher que vive sozinha, cheia de rituais e manias, começa a ter algumas sensações de stress, ao chegar em casa depois de um dia de trabalho relembra seu último sonho. Nele mãos de um príncipe percorriam o seu corpo despertando sensações mil. Quando ela olha com mais atenção, as mãos eram dela e ela percebe o quanto precisa ser amada e o quanto sente sozinha.

"Quando a realidade é intolerável, é só fazer assim, manter os olhos cerrados."

"O fim do ano trazia uma euforia com hora marcada, com contagem regressiva, um gigantesco antes, que ia num crescendo, para desembocar no momento do agora, quando os ponteiros se encontravam - uma parcela mínima de presente que explodiria e em seguida estaria terminada, seria passado"

"Ouvindo o ruido dos próprios passos no chão de pedra, ergueu os olhos. As construções quase se fechavam acima de sua cabeça, tal a estreiteza da rua. Sorriu, com um arrepio, ao pensar que as paredes debruçavam-se à sua passagem, para vigiar-lhes os passos. Como se soubessem que ali estava uma intrusa."

Não se engane com a capa bonita e delicada, cheia de envelopes e uma rosa descansando numa colcha. Este é um livro curto, mas extremamente denso, bem escrito, pesado e que merece uma leitura cuidadosa e atenta. Ótima diagramação, revisão impecável. Folhas amarelas, letras em tamanho confortável. Recomendo muito esta leitura, mas leia num estado de ânimo bom, para aproveitar as diferentes nuances destes contos poderosos.
Sobre a autora
É uma escritora e tradutora brasileira. Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense, Heloisa trabalhou como jornalista na agência de notícias UPI e depois na assessoria de imprensa da ONU. Em 1995 estreou como escritora, ao lançar um livro de contos chamado Pente de Vênus: histórias do amor assombrado. Um ano mais tarde, a Record lançou seu primeiro romance, A porta. Desde então, Heloisa Seixas tem escrito romances, contos e novelas, além de uma peça chamada Era no tempo do rei. Além disso, Heloisa mantém uma coluna na revista Seleções intitulada Essência de Heloisa.

A Noite dos Olhos
Autor: Heloisa Seixas
Ano: 2019
Páginas: 168
Editora: Companhia das letras
Classificação 5/5
Livro cedido pela editora
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